VISITANDO CHERNOBYL

Essa semana, mais precisamente no dia 26 de abril, completou 34 anos do acidente nuclear de Chernobyl. Atualmente é possível visitar o local que se tornou um museu ao ar livre e conhecer melhor mais uma das tantas histórias tristes do século XX.

O ACIDENTE

A humanidade ao longo do seu desenvolvimento conseguiu criar e replicar estruturas e projetos que facilitaram e melhoraram o seu estilo de vida, mas alguns desses megaprojetos acabaram tendo problemas colossais e sua destruição afetou milhares ou até mesmo milhões de pessoas. Um desses casos foi o reator nuclear de Chernobyl.

Para quem não se lembra,  esse acidente aconteceu em Chernobyl, cidade situada na Ucrânia soviética em 26 de abril de 1986, e o mesmo aconteceu devido a uma combinação de falhas humanas e mecânicas no resfriamento do quarto reator da usina.

Para conter a colossal emissão de partículas radioativas no ambiente, foi criado um sarcófago de concreto (que foi substituído em 2016) e que pesava milhares de toneladas.

Agora que vocês já refrescaram a memória sobre esse incidente gravíssimo que colocou em cheque a rápida nuclearização da matriz energética soviética na época, esse nosso texto tem como objetivo mostrar que apesar desse acidente ter gerado consequência catastróficas na região, permitiu a criação de um turismo de conscientização naquela área.

TURISMO

Após o acidente, que obrigou milhares de pessoas a deixarem suas casas, a região de 2,600 km² ao redor da usina nuclear que passou a ser chamada de Zona de Exclusão ficou fechada por muito anos e só foi aberta à visitação em 2011.

Anualmente, cerca de 70 mil pessoas visitam a região e esse número vem aumentando principalmente por conta do sucesso da série Chernobyl produzida pela HBO.

A visitação só é permitida com a presença de um guia, por isso é essencial contratar o passeio com alguma agência local que você pode encontrar através da Associação  de operadores turísticos de Chernobyl. O serviço deve ser contratado com antecedência, pois a visitação só é liberada com uma autorização do governo e isso leva em torno de 10 dias, mas não se preocupe porque a própria agência cuidará dessa burocracia, sendo necessário apenas informar os dados do seu passaporte.

Custo do passeio: 
Tour de 1 dia: Entre 90 e 120 euros
Tour de 2 dias: Entre 280 e 300 euros (Com hospedagem inclusa)
Tour de 2 dias + visitação à usina : Aproximadamente 430 euros (Com hospedagem e roupa de proteção inclusas)

É possível, também, optar por passeios particulares onde você e seus amigos poderão aproveitar cada momento com o tempo que vocês preferirem. Na foto abaixo tem os pontos de visitação de um desses passeios privados. Esse é feito pela agência Chernobyl Welcome.

Tour particular – Chernobyl Welcome

Veja quais as vantagens que cada agência vai te oferecer. Alguns pacotes incluem alimentação, o medidor Geiger para acompanhar os níveis de radiação em cada ponto da visitação (caso não esteja incluso veja a possibilidade de você alugar porque é muito interessante fazer esse monitoramento), cartões postais e outros serviços.

Esta visitação só é permitida para maiores de 18 anos, sendo proibido inclusive para os menores acompanhados dos pais e por isso você deve ficar atento caso viaje em família. 

COMO CHEGAR

Os passeios partem de Kiev, capital da Ucrânia, que fica a 130km da Zona de Exclusão. São cerca de 2 horas de viagem que normalmente ocorrem em uma van com ar condicionado e Wifi e ainda tem uma parada, durante a viagem, em uma loja de conveniência para comprar algo para comer. Aproveite a viagem para admirar as belas paisagens que você verá pelo caminho!

Quando chegar na área restrita, você passará por uma série de pontos de checagem com policiais que fazem a segurança da área e que irão te revistar e conferir seus documentos e ingresso. Lá você também receberá um medidor de radiação para colocar no pescoço que será usado para te monitorar.

Foto: Chernobyl City

MEDIDAS DE PROTEÇÃO 

Todo o passeio é bastante seguro e não expõe o visitante a nenhuma radiação que não seja normal ao ser humano. Mas para você se manter em segurança, é preciso respeitar algumas regras estabelecidas por eles.

  • Usar roupas de manga comprida, calça e sapato fechado
  • Não saia de perto do guia
  • Não toque em nada e não sente no chão
  • Não pegue nenhum objeto, plantinhas, pedras ou qualquer outra coisa (isso não é souvenir e é super perigoso
  • não apoie seu celular ou máquina fotográfica no chão ou qualquer outro lugar
  • Não é permitido comer ou beber água fora da van, pois com o elevado nível de radiação no ar pode contaminar o alimento que você vai ingerir

PONTOS DE VISITAÇÃO

  • Vila de Zalissya
  • Placa de entrada de Chernobyl
  • Beco da Memória e da Esperança / Woodworm Star Memorial e Praça principal
  • Monumento Daqueles que Salvaram o Mundo 
  • Estação de bombeiros
  • Sistema de radares Duga-3 
  • Interior dos apartamentos em Chernobyl 
  • Interior do jardim de infância 
  • Sarcófago do reator
  • Cidade de Pripyat 
  • Floresta radioativa e “ponte da morte” 
  • Piscina pública Lazurny 
  • Interior da escola
  • Estádio de futebol 
  • Restaurante e supermercado 
  • Parque de diversões 
  • Praça Central de Pripyat e Hotel Polissyia 
  • Café da cidade 
  • Cemitério
  • Outros lugares dependendo do tipo de visitação escolhida

Conhecendo a Zona Exclusiva

Ao chegar em Chernobyl, um dos primeiros locais de visitação é o Beco da Memória e da Esperança, um caminho com diversas placas que contém o nome de todas as cidades e vilarejos afetados pelo desastre. Esse local se tornou um ponto de homenagens e encontro de ex moradores. No fim deste caminho você encontrará uma estátua de um anjo tocando trombeta (Woodworm Star Memorial). Na praça principal da cidade também é possível ver a estátua de Lenin, presente em muitas cidades soviéticas.

Foto: Chernobyl Welcome

Outro ponto de homenagem é o Monumento Daqueles que Salvaram o Mundo, dedicado aos seis bombeiros que deram suas vidas tentando apagar o fogo que queimava no reator 4. No momento da explosão os bombeiros pensavam que se tratava apenas de uma pane elétrica e acabaram se expondo a muita radiação. Também é possível visitar o interior do edifício do Corpo de Bombeiros de Chernobyl.

Foto: Chernobyl Welcome

A próxima parada nos remete diretamente ao tempos de Guerra Fria. O Sistema de Radares Duga-3 é formado por torres altíssimas (85 metros de altura) de espionagem que captavam sinais de rádio e satélite. Seu objetivo era fornecer um alerta na iminência do lançamento de mísseis, de forma que a URSS antecipasse ataques nucleares e pudesse contra-atacar. 

Um ponto alto do passeio é visitar o interior dos apartamentos e observar os objetos deixados para trás. Quando a área foi evacuada logo após o acidente, os moradores foram informados que em poucas semanas poderiam retornar para as suas casas, mas não foi isso que aconteceu. O espaço ficou fechado por mais de 20 anos e as famílias nunca mais puderam retomar as suas rotinas, por isso o cenário assustador que encontramos quando visitamos a região. Muitos itens estão em seus devidos lugares, brinquedos espalhados pelas casas, roupas, utensílios domésticos e alimentos esperando pelo retorno daquelas pessoas. Você também irá conhecer o jardim de infância de Chernobyl, um dos lugares com maior incidência de radiação dentre os que podem ser visitados. Lá você encontrará berços e muitas bonecas abandonadas, parecendo cena de filme de terror.

E o causador de toda essa tragédia? Nesse momento você chegará bem perto do Sarcófago do reator 4. Lá dentro estão os restos do reator, logo após o acidente foi construída uma estrutura (que precisou ser renovada em 2016) para controlar e evitar o vazamento da radiação. Muitos profissionais continuam trabalhando no local para monitorar a situação. Os outros reatores continuaram em funcionamento até o ano 2000 e depois foram desativados em definitivo. É possível, também, subir em um dos prédios para se ter uma vista panorâmica da Usina.

Foto: Michał Lis/Unsplash

Recentemente, foi liberado visitar rapidamente a sala de controle do reator (de onde originou o acidente), mas para isso é necessário usar roupas de proteção, capacetes e máscaras pois a incidência de radiação nesse local é muito maior que os demais.

Certifique-se se o seu passeio inclui essa visita!

Outro ponto muito importante engloba Pripyat, a cidade mais próxima da usina e onde vivia a maior parte dos funcionários com suas famílias. Foi fundada em 1970, apenas 16 anos antes da explosão, com o objetivo de ser usada como modelo soviético, com ênfase no esporte e na educação. Lembre-se que estamos falando de um local que surgiu e desapareceu na União Soviética. Na época do desastre a cidade, com cerca de 50 mil habitantes, foi a mais atingida pela radiação.

Ao caminhar por Pripyat você vai precisar de um esforço para visualizar como o local era antes. As ruas foram tomadas pela natureza, os sinais de trânsito estão escondidos atrás das árvores e se não fosse pelas fotos mostradas pelo guia seria difícil imaginar como era a cidade anos atrás.

Nessa cidade também será possível visitar o interior de alguns edifícios. Um deles é uma escola, onde você encontrará materiais escolares espalhados e empoeirados, chão coberto de livros e o refeitório lotado por máscaras que foram usadas pelos profissionais responsáveis por descontaminar o ambiente.

Nesse momento você deve estar se perguntando onde estão as duas imagens mais conhecidas de Chernobyl, a piscina e o parque de diversões. Bem, aqui estão eles.

Vazia, com os azulejos descascando, cheia de entulhos e um cenário completamente sombrio. Essa é a imagem da piscina pública Lazurny que fica dentro de um complexo esportivo. Como já mencionamos, a prática esportiva era muito valorizada na URSS e imaginar esse local cheio de adultos e crianças praticando esporte e se divertindo em contraste com o lugar vazio e sombrio a nossa frente é muito triste. 

Foto: Wendelin Jacober/Pixabay

O parque de diversões tem um história ainda mais pesada, ele nunca chegou a ser inaugurado, pois a abertura estava prevista para o dia 1° de maio, 5 dias depois da data do acidente. O local, que deveria estar cheio de crianças se divertindo, encontra-se completamente abandonado, solitário e melancólico.

Terminando a visitação dos edifícios, você poderá conhecer o Hotel Polissya, que recebia as maiores autoridades que visitavam a cidade (em alguns passeios poderá subir até o topo do hotel para ter uma vista completa de Pripyat). Também poderá conhecer o interior de um restaurante, supermercado entre outros prédios. 

Foto: Wendelin Jacober/Pixabay

O principal café da cidade só pode ser visto do lado de fora. É proibido entrar, pois é um dos locais mais contaminados da região. Você perceberá que o medidor irá disparar nesse momento.

Dependendo do tour escolhido, você terá a oportunidade de conhecer a Floresta Vermelha e a “Ponte da Morte”. A floresta, de aproximadamente 10km², recebeu esse nome por conta do tom avermelhado da vegetação causado pela exposição à radiação. E a ponte da morte é um local onde muitos moradores teriam ido para ver o incêndio. Na série da HBO, que falamos no início do post, retrata que essas pessoas teriam morrido após contato com a radiação, mas nem todos concordam com essa informação.

Foto: Chernobyl Welcome

Outro local que dependendo do passeio escolhido poderá ser visitado é o cemitério da cidade. Lá será interessante perceber que muitas pessoas continuaram sendo enterradas no local mesmo após a explosão do reator. 

Ao fim do dia, você passará novamente pelo controle de radioatividade e os policiais irão examinar as vans para ter a certeza que nenhum item foi retirado da zona de exclusão.

COMODIDADES:

No meio do dia tem uma pausa para o almoço, que ocorre na cantina da Usina de Chernobyl e conta com comidas típicas ucranianas. Para entrar no refeitório você passará novamente por um controle de radiação. Aproveite esse momento para ir ao banheiro, pois provavelmente será o único que você encontrará em todo o passeio. Lá também encontra-se uma loja de souvenir.

Caso opte pelo tous de 2 dias, você ficará hospedado em um hotel na região com café da manhã, almoço e jantar do primeiro dia incluídos. Mas lembre-se: Você só pode andar pela região acompanhado do guia, então não poderá sair do hotel sozinho.

ATUALMENTE:

Existem cerca de 150 aldeias dentro da Zona de Exclusão e foi uma logística muito complicada para evacuar os moradores de dentro dessas aldeias. Um tempo depois, alguns moradores, chamados de “retornados” pelas autoridades, (a maioria com idade mais avançada e que não se adaptaram a vida em Kiev) tiveram autorização para voltar e atualmente cerca de 150 vivem nessas aldeias dentro da área de 30km em torno de Chernobyl.

Além desses moradores, existem cerca de 3 mil profissionais (cientistas, policiais e trabalhadores da usina) trabalhando na região, por isso alguns prédios administrativos estão em funcionamento além de  hotéis, lojas e uma igreja. Dessa forma percebemos que mesmo com essa percepção de cidade abandonada, saída de um filme pós apocalíptico, a região ainda é ativa e vive com a pesquisa e o turismo.

EXTRA:

Quando estiver em Kiev não deixe de conhecer Museu Nacional Ucraniano de Chernobyl. Lá você encontrará toda a parte teórica do acidente, com documentos, fotos, vídeos e objetos. 
Segunda à sábado, das 10h às 18h

Conhecer Chernobyl é como visitar uma cidade que parou no tempo, que congelou por todos esses anos, mas com a ação do tempo e da natureza se fazendo presente. A fauna e a flora se adaptaram aos efeitos da radiação, talvez sejam menores que o “efeito ser humano”. Quando entramos na van para retornar a Kiev, deixamos para trás um museu a céu aberto, uma parte significativa da história e da sociedade. As vivências nesse lugar são indescritíveis, é como se você ainda estivesse naquele 26 de abril de 1986.

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O que você achou deste post? Você já visitou Chernobyl? Já assistiu a série e ficou com aquela vontade de conhecer?

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